quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Alertas para o golpe

Alertas para o golpe
João Ubaldo Ribeiro


A vocação cívica aqui de Itaparica é sobejamente conhecida de todos, mas está sempre surpreendendo por sua intensidade. À primeira vista, o viajante nada perceberá, na névoa da madrugada que encobre delicadamente a Rua Direita ainda deserta, as pedras umedecidas do chuvisco que regou as plantas antes do amanhecer, o silêncio só quebrado pela algazarra da passarada. Talvez um jeguinho em seu passeio matinal antes de pegar no batente, talvez alguém indo assistir ao nascer do sol em cima do cais, tudo quieto e sossegado, como deve ser a venerável vila onde a história do Brasil começou.

Mas, da mesma forma que no passado, a aparência tranquila disfarça a ebulição estuante que nos pôs à frente de todos os grandes movimentos nacionais. Pois que murmúrio é esse, de vozes abafadas porém exaltadas, que o viajante ouve cada vez mais forte, à medida que se aproxima dos umbrais do Bar de Espanha? Alguma festa, que só terminou nesse instante? A numerosa família de Espanha arrumando o estabelecimento para mais um dia de intenso funcionamento? Talvez o rádio ligado nas notícias matinais?

Não, não, nada disso. Também da mesma forma que nas boticas e lojas de maçonaria dos tempos heroicos da Independência, a verdade é que essas vozes, agora muito altas, ao deter-se o viajante à porta do bar, são discursos e brados de conspiradores, gente versada em sedições e levantes, gente afeita ao combate e às lides revolucionárias, gente disposta a qualquer proeza ou sacrifício pelo bem da nação. E, em tom elevado e veemente, é inequívoco que a voz que mais se destaca é a de Zecamunista, inconfundível em sua eloquência vibrante e seu vigor nas denúncias que profere.

– Esse ministro Genro – diz ele, sublinhando as palavras com gestos de Castro Alves – está preparando um golpe, não podemos esmorecer na vigilância democrática! Deu nos jornais, qualquer um pode ler.

– Está escrito que vão dar um golpe?

– Não, claro que não, é tudo muito maquiavélico, a coisa é quase subliminar. Mas aí eu apelo para meus conhecimentos de enxadrista. Eles pensam que me pegam, mas eu já estou vários lances na frente.

– Mas o que foi que ele disse, afinal?

– Disse que d. Dilma é vítima de preconceito.

– Não entendi o que isso tem a ver com golpe.

– Primeiro passo! É o primeiro passo! Em seguida?

– Só você cantando esse jogo, Zeca, eu nem sei jogar xadrez direito.

– Eu canto, eu canto, embora estejamos num país de surdos e não adiante nada. O segundo passo está na cara: quem não gostar dela é preconceituoso.

– Bem, pode até ser.

– Lá vai você caindo na pegada do ministro, às vezes eu acho que aqui só tem otário. Terceiro passo: quem não gostar dela não só é politicamente incorreto como vai para a ilegalidade. Não pode ter preconceito no Brasil, discriminar ninguém por raça, aparência, sexo, nada. Então, quarto passo: quem disser que não gosta dela vai processado pelo Ministério Público.

– Zeca, você não está vendo que isso não pode acontecer?

– É, não pode mesmo. Vai ser pior, depois vem o quinto passo. Quinto passo: quem não votar nela vai em cana.

– Me desculpe, mas isso é delírio completo, isso não vai acontecer aqui, nem pode acontecer em nenhum lugar do mundo.

– Demonstrada mais uma vez a sua ignorância. A primeira condição para compreender o Brasil é levar sempre em conta que aqui acontecem coisas que não podem acontecer em lugar nenhum do mundo. Você viu os caras, lá em Brasília, passando bolos de dinheiro para lá e para cá? Viu o governador pegando dinheiro? Viu a deputada enfiando dinheiro na bolsa? Viu um cara metendo dinheiro na cueca e outro na meia?

– Vi, todo mundo viu.

– Negativo. Nem todo mundo viu, pelo menos do jeito que a gente viu. Tanto assim que até o presidente disse que aquelas cenas não davam para concluir nada. O que é que dava, então? Os caras parando no meio da enfiada de dinheiro no rabo para falar para a câmera? Atenção, Brasil, close na minha cueca, estou levando grana de propina e afanando o dinheiro dos trouxas! Que é que precisava mais, para mostrar que os caras estavam levando jabaculê, que eles saíssem no carnaval fantasiados de irmãos Metralha e carregando sacos de dinheiro?

– Você não deixa de ter alguma razão. Mas isso não vai ficar assim, vai dar processo.

– Vai, vai, sim. Quem de agora em diante mencionar essas propinas vai ser processado. Antes, já tomou porrada e pisada de cavalo, lá em Brasília mesmo e aí entrar em cana completa o tratamento.

– Você está muito pessimista, Zeca.

O Globo, 10/1/2010